Carlos Nader, diretor de cinema, afirma: Mais que autista, meu filho é artista!

Autor de documentários premiados, como “Pan-Cinema permanente”, “Homem comum” e “A Paixão de JL”, o paulistano Carlos Nader volta às suas origens na videoarte com uma parceria inédita. Ele expôs pela primeira vez um conjunto de seis novas obras, três delas criadas em parceria com seu filho, Teo, de 17 anos, que tem autismo. Batizada de “Auto”, a mostra fica em cartaz até 17 de março, na Galeria Lume, em São Paulo. Nesta entrevista, o cineasta paulistano de 53 anos conta como a parceria o fez querer voltar às artes visuais e discute as mudanças na percepção que a sociedade tem do autismo.

O que o motivou a voltar às galerias?O nascimento do Teo e o diagnóstico do autismo, quando ele tinha mais ou menos 1 ano e meio, foram divisores de águas na minha vida pessoal e profissional. Comecei numa cena da videoarte bem específica (passagem dos anos 1980 para os 90), mas depois segui pelo cinema, tanto que hoje sou mais conhecido como documentarista. Não há edital para a videoarte como há para o cinema, então esse tipo de trabalho acaba sendo muito pessoal e, com o tempo, começou a escassear. Nunca deixei de receber convites de galerias, mas não queria voltar com algo sem uma linguagem específica para o meio. Então, no segundo semestre de 2017, encontrei, nessa possibilidade de parceria com o Teo, a vontade de voltar para as artes visuais.

Como percebeu que poderia criar obras junto com ele?Eu já tinha vontade de fazer algo e sofria a cobrança de fazer um documentário ou mesmo escrever um livro sobre o autismo. Mas o Teo não gosta nem de ser fotografado. Ele prefere ficar na dele, e eu não queria expô-lo dessa forma. Ao mesmo tempo, observava que, mais que um autista, o Teo é um artista. Tem um senso estético muito forte. Outro dia, ele estava com uma camisa amarela e me pediu para trocar, só consegue dormir depois de arrumar o quarto inteiro da forma que lhe agrada visualmente. Gosta muito de assistir a vídeos no tablet, e vai acrescentando vídeos a partir de critérios estéticos, sem seguir narrativa. Há coisas desde Teletubbies, que ele vê desde criança, até imagens de pessoas aleatórias. Claro, isso não faz dele um artista, mas o Teo também interfere nessas imagens. Descobriu um recurso para editar no YouTube que nem eu, que trabalho com audiovisual há anos, conhecia. E gosta de interferir nos vídeos, para deixar do jeito que ele quer.

E como funciona a parceria?Como o Teo vive o tempo de uma forma específica, nossa construção narrativa de passado e futuro não significa nada para ele, não faz sentido criar algo para o futuro. Então essa nossa parceria não convencional foi estabelecida a partir da experiência, da fruição. Crio influenciado pela experiência do Teo, pela forma como ele vê o mundo e se relaciona com as imagens. Depois mostro os trabalhos, para ver se ele gosta ou se mudamos algo. Tem um díptico, chamado “Espaço tempo”, que usa imagens que o Teo sempre vê. Numa tela, passa um foguete decolando em loop (ele decola, some na própria fumaça, e aparece de novo). Na outra, essa cena surge fragmentada em centenas de frames. Outra obra é “Reter éter”, em que essa frase, que é um palíndromo, surge no fundo de um vaso, e é percebida de forma circular. Ela tem uma relação com o concretismo, que sempre identifiquei com a questão do autismo.

Em que sentido?Os portadores de autismo utilizam mais o lobo temporal direito, ligado à percepção visual e espacial, do que o esquerdo, que é a área da linguagem. Isso tem uma relação direta com a comunicação. O Teo se conecta com as palavras por sua estética, ele gosta do desenho das letras, a forma é mais importante do que o significado. De certa maneira, o concretismo também tem esse aspecto visual forte, em que esses dois lados se equilibram.

O autismo tem sido retratado em livros, filmes e séries. De algum modo, essas representações trazem melhorias para os portadores do distúrbio? As coisas melhoraram, em vários sentidos. Do ponto de vista médico, houve um avanço enorme nas últimas décadas. Há 15 anos você ia ao médico e ele não sabia absolutamente nada sobre o assunto, e hoje estas informações são muito mais disseminadas. Em 2004, uma pesquisa da Universidade John Hopkins que relaciona o autismo a inflamações no cérebro e à atividade do sistema imune foi um divisor de águas na área. A neuroimunologia, que estuda estes dois sistemas, tem avançado bastante. Pelo lado cultural, a presença mais forte do tema ajuda a diminuir o preconceito, as pessoas lidam melhor, as escolas não recusam mais, e quebram-se alguns mitos.

Quais?Por exemplo, a história de que os autistas não gostam de ser tocados tem a ver com o excesso de sensibilidade, mas também está muito relacionada à cultura americana, em que as pessoas têm menos hábito de se tocarem. É ótimo que personagens autistas apareçam mais, só é preciso cuidado para que não vire mais uma indústria cultural. Quando me cobravam que me manifestasse sobre o tema de maneira pública, eu ficava ressabiado, porque é algo que “pega bem”. As pessoas acham lindo o pai que luta pelo filho, e eu não queria entrar nessa. O ideal é achar um meio-termo para evitar os excessos.

Fonte: http://www.gsnoticias.com.br/

Vera Garcia

Pedagoga e blogueira. Criadora dos blogs Deficiente Ciente, Raridade e Criança Especial.

Website: http://www.criancaespecial.com.br

1 Comentário

  1. Vilza Alves

    Excelentes entrevistas.
    Tenho um autista na família , tem 4 anos.Arthur Henrique . E um privilégio conviver com pessoas tão especiais.

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